Sonhos atômicos: Origens
Uma (breve) introdução aos filmes de GODZILLA | Parte 2: A Era Showa
I. Era Showa
Godzilla (Ishiro Honda, 1954)
Godzilla Raids Again (Motoyoshi Oda, 1955)
King Kong vs Godzilla (Ishiro Honda, 1962)
Mothra vs Godzilla (Ishiro Honda, 1964)
Ghidorah, the Three-Headed Monster (Ishiro Honda, 1964)
Invasion of the Astro-Monster (Ishiro Honda, 1965)
Ebirah, Horror of the Deep (Jun Fukuda, 1966)
Son of Godzilla (Jun Fukuda, 1967)
Destroy All Monsters (Ishiro Honda, 1968)
All Monsters Attack (Ishiro Honda, 1969)
Godzilla vs Hedorah (Yoshimitsu Banno, 1971)
Godzilla vs Gigan (Jun Fukuda, 1972)
Godzilla vs Megalon (Jun Fukuda, 1973)
Godzilla vs Mechagodzilla (Jun Fukuda, 1974)
Terror of Mechagodzilla (Ishiro Honda, 1975)
A era Showa é a era clássica, por assim dizer. Nele, temos o primeiro filme da série, Godzilla (1954), dirigido por Ishiro Honda e com os efeitos especiais do mestre Eiji Tsuburaya. Produzido pelo estúdio Toho, o filme de Honda (que foi aprendiz de Akira Kurosawa) é provavelmente o Monster Feature mais famoso da história do cinema - ou, ao menos, disputa o título com sua contra-parte Ocidental, King Kong. A origem de Godzilla, por sinal, depende a existência do primata monstruoso.
O longa de Merian C. Cooper, apesar de lançado em 1933, só foi ser exibido no Japão em em 1952, onde se tornou uma sensação com o público, em especial os deslumbrantes efeitos especiais em stop motion de Willis O’Brien. O sucesso de King Kong fez com que os executivos da Toho corressem atrás da febre por filmes de monstros gigantes, buscando criar os seus próprios. Monstros, horror e ficção-científica já eram comuns no Japão (até mesmo o estúdio Shochiku, a casa de Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, produziu películas que mesclavam horror e ficção-científica), mas o kaiju em si ainda não tinha aparecido (apesar de que o folclore japonês é repleto de referências a monstros gigantes, em especial aqueles que habitam cavernas e os mares). O diretor Ishiro Honda, veterano dos horrores da Segunda Guerra Mundial, e politicamente ativo, queria fazer algo que protestasse contra os testes com bombas atômicas que os Estados Unidos faziam nos mares e ilhas do Pacífico, como também queria refletir sobre o horror apocalíptico da energia nuclear. Honda e seu diretor de fotografia Masao Tamai fizeram um filme repleto de imagens que misturam Expressionismo com jornalismo, evocando o horror do bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki, e o filme em si não conta tanto com personagens como protagonistas, sendo assim um painel de pessoas, onde algumas (como o Dr. Serizawa, interpretado por Akihiko Hirata) se destacam.





Mas o visual de Godzilla é impressionante, até hoje. Em primeiro lugar, apesar de ser um “dinossauro” com um visual que remete a King Kong e outras criaturas fantasiosas, partes das escamas e textura de Godzilla foram feitas deliberadamente para evocar as cicatrizes e queimaduras características de radiação. O tamanho monumental (e Godzilla só cresceria nos próximos filmes, para acompanhar o desenvolvimento dos arranha-céus do país) enfatiza o poder descomunal e anti-natural do monstro, que apequena os seres humanos e destrói cidades como se elas fosse de papel e brinquedo.
Aqui, Godzilla não é um monstro ágil e versado em luta, como ele se tornaria em filmes posteriores, mas sim uma força da natureza, movida por uma lógica irracional que é pura destruindo. O filme de Honda também é lento, com ritmo deliberado, carregado de imagens sombrias onde mostra a destruição e a devastação humanas. Tais cenas são nada menos que macabras, misturando realismo jornalístico com a força de um pesadelo Expressionista.
Isso não é ao acaso. A origem de Godzilla é tratada como um mistério. Isso se dá pelo fato de que, até 1952, o Japão estava sob administração dos Estados Unidos, que censurou veementemente toda e qualquer discussão, ou mesmo menção, aos ataques nucleares. Dado o fato de que, no pós-Guerra, o país estava completamente destruído, a discussão sobre Hiroshima e Nagasaki só podia se dar de forma velada e oculta, e dependia de relatos de sobreviventes e pessoas que passaram pelas regiões - como Ishiro Honda, que passou brevemente por Hiroshima ao voltar ao país no fim da guerra. O horror atômico, assim como o papel do Japão na guerra, eram segredo, mas um tipo de segredo que não podia ficar guardado. Godzilla emerge como o “retorno do reprimido”, o tabu da guerra e da posterior irresponsabilidade americana de continuar testando armamento nuclear nas águas do Pacífico.
O governo japonês é retratado como incapaz e ineficiente ao longo do filme pelo simples fato que temem que, ao revelarem a origem de Godzilla, perderão a cooperação que necessitam dos americanos. Dessa forma, o povo japonês se encontra abandonado e à deriva diante do horror de Godzilla.
É importante ressaltar isso pois nem sempre os personagens humanos seriam bem tratados pelos filmes posteriores. A ideia de se fazer um painel de personagens que precisam enfrentar um monstro gigante ajudam a pintar a ideia de que uma sociedade ou país precisam se unir para enfrentar uma ameaça comum. Funciona perfeitamente em alguns filmes da série, mas isso é mais exceção do que regra. Os monstros literalmente roubam os holofotes, e isso se dá pelo fato de que a humanidade pouco, ou nada, pode fazer contra os monstros. Do ponto de vista dramatúrgico, isso faz com que os personagens humanos tenham pouca agência e mesmo consequência nas tramas dos filmes, e isso seria reconhecido por diversos cineastas e produtores que tiveram passagem pela franquia.
O sucesso de Godzilla, tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, precipitou uma verdadeira febre desse tipo de filme, gerando, assim, não só o gênero Kaiju como o Tokukatsu (“filmes de efeitos especiais”, geralmente ficção-científica, horror, fantasia e mesmo kaiju - quase sempre misturados). Godzilla também precipitou uma fórmula, que seria copiada, reimaginada e desconstruída exaustivamente em inúmeros filmes.
De todo jeito, a Era Showa é fundamental para se compreender o personagem e o gênero. Nela, Godzilla emerge como um vilão, um monstro de filme de horror com dimensões apocalípticas. Gradualmente, no entanto, o gênero e o personagem passam por modificações. No caso, ele se torna um anti-herói, um aliado de ocasião aos seres humanos, defendendo o Japão e o seu território do ataque de outros monstros (que podem ser frutos de mutações, invenções humanas ou mesmo alienígenas) passando para o de herói, cuja aparição é celebrada por humanos que dependem dele para sobreviverem. Isso também faz com que os filmes da Era Showa se tornem mais voltados a adolescentes e crianças, e os últimos filmes do período são abertamente voltados para o público infantil. Gradualmente as batalhas de Godzilla ocorrem longe de grandes cidades, se passando em ilhas e mesmo na Lua. Nesses lugares, Godzilla - que não só defende o Japão como, por vezes, passa a personificá-lo, é uma força que luta com bravura e força sem causar danos e mortes. É um super-herói, portanto. Por isso, é comum encontrar mensagens positivas, como o pacifismo (Son of Godzilla) e o ambientalismo (Godzilla vs Hedorah).






Mas a Era Showa introduz também os outros monstros que se tornariam presenças perenes na franquia: Mothra, uma mariposa gigante; Rodan, uma espécie de pterodáctilo; Hedorah, um monstro mutante feito de poluição; Mechagodzilla, um ciborgue que é a contra-parte (geralmente maligna) do próprio Godzilla; e, claro, Ghidorah (King Ghidorah, ou às vezes Ghidra), o dragão de três cabeças que é o arqui-inimigo de Godzilla. Boa parte desses kaijus foram criados pela Toho e introduzidos em outros filmes, individuais. De certa forma, é possível ver nisso uma antecipação dos universos cinematográficos contemporâneos, como o da Marvel, mas o fato é que estes filmes possuem uma continuidade muito frouxa, e é comum ver as origens destes monstros praticamente mudarem de filme a filme. Apesar deste detalhe dos filmes individuais, o fato é que, neste momento, a franquia Godzilla é mais facilmente comparável à de James Bond.
Ishiro Honda continuaria não só como diretor de diversos filmes do personagem no período, como também sua principal força criativa, uma espécie de guardião do personagem. Honda, que serviu no exército imperial japonês, e também foi feito de prisioneiro de guerra pelos chineses, foi profundamente marcada por uma vontade de enxergar paz e cooperação entre os povos, assim como também assegurar o papel do Japão nesse novo mundo que se desenhava.
A arma de Serizawa no primeiro filme, por exemplo, é retratada como sendo muito mais destrutiva e mortal que a bomba atômica. Isso carrega um sentido duplo, em que ela tanto simboliza o horror do armamento moderno como também representa uma vontade de superioridade tecnológica japonesa diante da invenção americana que derrotou o Japão. Essa ambivalência perpassa o trabalho de Honda, e pode ser sentida em todos os filmes da Era Showa.
Em Destroy All Monsters, por exemplo, a trama se passa no fim do século XX, onde as nações do mundo encontraram a paz comum e a cooperação. É necessário uma ameaça extraterrestre para desencadear o conflito. Em outros filmes, como os de Mechagodzilla, vemos que o avanço tecnológico pode ser tanto a solução quanto o desencadeador de mais problemas. Apesar dessa ambivalência, Honda possuía a crença de que tais desafios poderiam ser superados se os diferentes povos da terra colocassem suas diferenças de lado e cooperassem. Esse tipo de sentimento partia de um senso de comunidade e camaradagem, e é parte da visão profundamente humanista de Honda.
Por conta da frequência com que estes filmes eram lançados foi o fato de que o público se cansou não só de Godzilla mas de kaijus em geral. Por questões orçamentárias, e desinteresse por parte da Toho, os filmes de Godzilla começaram a ficar mais pobres e toscos, muitas vezes reaproveitando cenas de filmes anteriores, que nem sempre eram muito integradas na montagem. Por isso, em 1975, com o lançamento de Terror of Mechagodzilla, era hora do lagarto voltar a dormir. No fim, é uma pena que o último filme da Era Showa, que é consideravelmente mais sombrio e violento que os filmes que vieram imediatamente antes dele, tenha sido dirigido por Honda. Até hoje, Terror of Mechagodzilla é considerado o maior fracasso de bilheteria de toda a franquia, ainda que esteja longe de ser o pior. Seria o último filme dirigido por Honda, que se aposentou até ter convencido por seu amigo Akira Kurosawa a voltar para o cinema, dessa vez como diretor de segunda unidade, função que Honda desempenhou nos últimos cinco filmes do mestre.














Os caras faziam um filme por ano, sendo que em 64 foram 2. Era quase uma linha de produção de Godzilla.