RESSACA DE COPA
Por um reabrasileiramento do futebol.
Eu acordei de ressaca. Engraçado porque eu não bebi (tô de dieta).
Minha ressaca é de Copa, pois ontem aconteceu o impossível, o inadmissível, o obsceno. O Brasil foi eliminado da Copa pela Noruega. Repito, para que a frase doa com a necessária lentidão.
PELA
NO-RU-E-GA.
Não foi pela Alemanha, pela Argentina, pela França, pela Croácia, sei lá… Foi pela porra da Noruega, que deve ser ótima, mas até ontem só era conhecida pelo brasileiro por duas coisas: ser fria e longe.
Eu não tenho como escrever sobre cinema ou sobre qualquer outra barbaridade que eu desanco por aqui num clima desses. Quem sabe semana que vem, mas agora não.
A Noruega, que parecia ter sido inventada por um professor de geografia para humilhar aluno distraído, veio e nos enfiou dois gols. Dois. Um já seria desaforo. Dois é desconcertante… E o pior, não se pode dizer que foi zebra. A zebra, coitada, é um animal decorativo. Ontem não eu não vi uma zebra. Eu vi um laudo do IML. Não foi o atropelamento do 7x1, mas ainda assim doeu na minha alma. Me falta até o gracejo pra deixar isso mais palatável ou a inteligência mordaz pra deixar mais com cara de Nelson Rodrigues. Mas é isso, é o que temos.
O Brasil não perdeu para a Noruega. Isto seria simples demais, quase esportivo. O Brasil perdeu para uma ideia. Uma merda de uma ideia importada, embrulhada em papel celofane europeu, com manual de instruções, QR code, mapa de calor e um vocabulário que faria chorar de tédio até uma bola murcha.
A Noruega fez dois gols, é verdade. Haaland, o mais feio cone escandinavo, cumpriu seu papel. Ficou parado, esperando, aí empurrou, cabeceou, chutou. Duas vezes. A Noruega foi Noruega com uma serenidade ofensiva. Jogou como quem monta uma estante: peça A na peça B, parafuso na ranhura, gol aos 79, gol aos 88, obrigado e boa noite.
Mas o Brasil? Ah, o Brasil entrou em campo como um menino que foi obrigado pela mãe a usar gravata borboleta na festinha de aniversário.
Era um tal desconforto íntimo… uma vergonha de si mesmo... A seleção parecia pedir desculpas... Tocava de lado com a delicadeza de quem não quer incomodar os povos nórdicos. Recuava a bola como quem devolve um presente caro. Esperava a jogada certa, o espaço certo, o dado certo, a aprovação certa. Faltava o sujeito dizer: “Com licença, senhor Haaland, posso exercer minha brasilidade por cinco segundos?”
Eis o crime.
Há anos querem convencer o jogador brasileiro de que ele deve pensar como um centroavante alemão, correr como um lateral inglês, obedecer como um volante suíço e se emocionar como uma planilha dinamarquesa. É o velho vira-latismo, agora com laptop. Antigamente o vira-lata tinha vergonha do nosso atraso. Hoje tem vergonha do nosso talento. Olha para o drible e vê irresponsabilidade. Olha para a firula e vê improdutividade. Olha para a malandragem e chama uma merda de uma consultoria pra analisar.
O brasileiro moderno descobriu um novo pecado.. ser brasileiro.
Naturalmente, não se trata de rejeitar treino, ciência, análise ou preparo. Só um idiota romântico acharia que se ganha Copa APENAS com feijoada, pandeiro e lampejos. Mas há uma diferença brutal entre usar a ciência e ser possuído por ela. Uma coisa é pôr a tabela a serviço do craque. Outra, muito diferente, é pôr o craque de joelhos diante da tabela.
Foi isso que fizeram. Incrustaram uma ética europeia num corpo cultural que não nasceu para obedecer a ela. É como botar fraque numa passista e mandar que ela atravesse a avenida em linha reta. O futebol brasileiro não opera apenas por evidência, repetição, controle e previsibilidade. Ele opera por susto. Por insolência. Pelas pernas de Garrincha, pela marra de Ronaldo, pela eficiência preguiçosa de Romário, pela liderança escrachada de Sócrates e pela realeza de Pelé. Por uma espécie de desordem iluminada que o adversário não consegue traduzir.
O Brasil sempre venceu porque era uma pergunta que o outro não sabia responder. Ontem, porém, viramos resposta de múltipla escolha.
E que resposta pálida! Quase nenhuma posse de bola, sempre alma. Troca de passes sem ameaça. Organização sem veneno. Disciplina sem desejo. O Brasil tocava, tocava, tocava, como um funcionário carimbando papéis no purgatório. De repente, um passe para trás. Depois, outro. Mais um. Havia momentos em que a seleção parecia querer chegar ao gol norueguês dando a volta pelo regulamento.
E futebol, meus amigos, não é concurso público. A bola pune.
Futebol exige talento, sim. Mas ontem não faltou talento como faltou malandragem. Faltou maldade. E digo maldade no sentido mais nobre da palavra futebolística: a maldade de perceber o medo do zagueiro e esfregar nele a bola… a maldade de saber a hora de cavar uma falta, esfriar o jogo, acelerar no momento indecente… a maldade de transformar um lateral comum num homem em crise… a malandragem de entender que a Copa não é seminário acadêmico, é uma briga de facas.
O jogador brasileiro de ontem foi bom moço demais. E bom moço, em mata-mata, volta para casa cedo.
Não se ganha Copa sendo apenas correto. A correção é uma virtude para preencher formulário. Dentro da área, a correção pode ser covardia. O campeão precisa de uma dose de pecado. Precisa daquele olhar de quem pensa: “Eu vou te enganar, e você ainda vai agradecer pela aula.” Foi assim que o Brasil assombrou o mundo. Não por pedir permissão à Europa, mas por lembrá-la de que existia uma outra forma de beleza… a beleza do drible que não serve para nada até servir para tudo.
A Noruega não precisou ser genial. Digo mais, a Noruega foi muito longe de genial…
Bastou ser adulta, compacta e fria. O Brasil, diante dela, deveria ter sido Brasil… quente, esperto, abusado, perigoso. Mas preferiu ser um projeto de europeidade mal-ajambrado.
Nada é mais triste do que um brasileiro tentando ser europeu de segunda classe, quando poderia ser brasileiro de primeira…
O primeiro gol norueguês nasceu dessa nossa cerimônia. O monstruoso Haaland (note que o adjetivo deve ser entendido aqui em termos estéticos) subiu como um fiorde que tivesse aprendido a andar. O zagueiro brasileiro olhou, calculou, hesitou, talvez tenha consultado mentalmente o analista de bola aérea. Tarde demais. Gol. A bola entrou e, com ela, entrou também a verdade… o adversário tinha convicção, nós tínhamos metodologia.
Depois veio o segundo. O golpe de misericórdia. A Noruega chutou como quem não acredita em fantasmas. Nós defendemos como quem ainda espera um parecer técnico.
Dois a zero.
Então o Brasil fez o pior que podia fazer. Nada. Ainda teve aquela vergonha do Neymar, que ainda acredita não estar aposentado, bater boca com o goleiro quando já estava perdido. Claro, pelo menos converteu o pênalti, mas de que adianta isso… já havíamos cagado um pênalti antes…
Ainda assim, o 2 a 1 foi a humilhação com desconto.
Logo surgiram outros sábios de velório como eu falando outras merdas para além destas…
Mas o perigo são os outros… os que falam: “faltou intensidade”, “faltou último terço”, “faltou ocupação racional dos espaços”, “faltou controle dos corredores internos”. Que gente sem imaginação! Faltou foi sangue nos olhos. Faltou a sagrada irresponsabilidade. Faltou o orgulho de vestir uma camisa que não nasceu para fazer média com estatístico.
Faltou entender que a Seleção Brasileira não é uma startup de futebol.
O vira-latismo nacional sempre aparece fantasiado de lucidez. Ele diz: “Precisamos aprender com a Europa.” Claro que precisamos aprender. Todo mundo aprende com todo mundo. Mas aprender não é ajoelhar. Aprender não é amputar a própria memória. Aprender não é pegar o jogador brasileiro, filho da várzea, da quadra, da pelada, do improviso, da bola torta, do campinho, da humilhação convertida em drible, e transformá-lo num robô tático que só respira quando autorizado pelo modelo tático do técnico europeu.
Há uma inteligência brasileira que não cabe no relatório. Uma inteligência de corpo, de quadril, de olhar, de pausa, de mentira, de atalho.
A Europa tem sua grandeza… até…
Disciplina, estrutura, método, repetição.
Mas o Brasil tem outra…
Invenção, malícia, desobediência criadora.
O erro foi imaginar que a primeira deveria colonizar a segunda.
O futebol brasileiro não precisa virar bagunça. Precisa voltar a ser perigoso. Porque ontem não fomos perigosos. Fomos higiênicos. E a Noruega, que não é boba, percebeu. Olhou para aquele Brasil limpinho, bem treinado, bem comportado, cheio de boas métricas, e pensou… “Dá para matar.”
Matou.
Que fique claro… patriotismo não é negar a derrota. O falso patriota passa pano. O patriota verdadeiro esfrega a ferida com sal e pergunta quem deixou infeccionar. Amar o Brasil não é dizer que jogamos bem quando jogamos com medo. Amar o Brasil é exigir que o Brasil volte a jogar como Brasil.
Não queremos uma seleção arrogante de museu, vivendo de 1970 como um tio bêbado vive de histórias antigas. Queremos uma seleção que honre a camisa no presente. E honrar a camisa brasileira não é apenas correr. Até a Noruega corre. Honrar a camisa brasileira é ousar mais do que o adversário suporta. É ter a coragem de errar para para criar. É ser técnico sem ser burocrata. É ser moderno sem ser colonizado...
Tem que ter coragem…
Dito isso, permito-me uma pequena digressão raivosa. Temos que falar de covardias…
Tem covardia que começa fora de campo e a camisa brasileira também entrou machucada. Não pelos ombros dos jogadores, mas pelo sequestro simbólico que sofreu nos últimos anos.
O bolsonarismo cometeu contra o verde-amarelo um crime de apropriação indébita afetiva. Pegou a camisa que era do menino, do bêbado no bar, da avó que não entende impedimento, do camelô, do ateu, do crente, do sambista, do tímido, do brasileiro inteiro, e tentou transformá-la em crachá de ressentimento, senha de condomínio ideológico, uniforme de palanque.
Fez o sujeito honesto hesitar antes de vestir a amarelinha, como se amar o Brasil fosse aderir a um comício permanente. Pois não é. A camisa não é do capitão, nem do mito, nem da motociata, nem do tio que berra “minha bandeira jamais será vermelha” antes de confundir patriotismo com chilique. A camisa é nossa.
Talvez parte da nossa frouxidão comece aí… quando um país deixa que roubem até seus símbolos, entra em campo pedindo desculpas por existir. Patriotismo de verdade não é posar de verde-amarelo para defender chefe político. É sofrer pelo Brasil sem transformar o Brasil em propriedade privada.
A derrota para a Noruega deve servir para enterrar essa ilusão…
Talvez também para enterrar outra ilusão… A tal ilusão de que o hexa virá quando formos europeus o bastante. Não virá. O hexa virá quando formos brasileiros o bastante para usar o que há de melhor no mundo sem pedir desculpas pelo que há de melhor em nós.
A bola brasileira não nasceu para viver domesticada.
Ontem, faltou talento? Talvez. Mas talento havia em campo. O que faltou mesmo foi malandragem, foi maldade, foi fome de constranger o adversário. Faltou aquele instinto antigo de quem sabe que futebol não é só espaço… é intimidação, é teatro, é emboscada, é alegria usada como arma.
O pior não foi perder para a Noruega. O pior foi perder tentando provar que éramos “civilizados”, no sentido mais neocolonial europeísta da palavra, aquele que nega a existência do mundo que não é branco como um norueguês.
Pô, civilizado é o caralho.
O Brasil precisa reabrasileirar-se.
Ser insuportavelmente Brasil.




O futebol brasileiro foi sequestrado pelo jeito europeu, principalmente quando os nossos talentos são roubados aos 16 anos e vivem 2 anos ansiando ir para europa. Eles vão, alguns voltam, mas a que custo? O custo de 6 copas seguidas caindo para o futebol que os sequestrou. Esse é apenas um dos problemas, mas enfim, até 2030.
Foi bem até a parte final. Quando "politizou" mostrou-se um lulopetralhista tão imbecil quanto os mentecaptos que pretendeu criticar.