"On Bullshit"
Uma análise do pequeno gigante que é o livro de Harry G. Frankfurt
ALERTA: Hoje vou me arriscar em uma zona perigosa. A análise de um livro de análise filosófica da realidade. Agradeço a paciência.
On Bullshit, de 2005, é daqueles livros irritantemente pequenos (são apenas 70 páginas no original em inglês) que fazem mais estrago do que muita obra inchada pseudointelectualóide tentando parecer profunda. Para respeitar o espírito da obra, vou tentar ser suscinto e propor uma análise breve do texto.
O autor mordaz é Harry Frankfurt, filósofo estadunidense morto em 2023 após longa carreira acadêmica em universidades como Yale e Princeton.
A obra tem 21 anos, mas é atemporal, justamente porque esse cara genial pega numa palavra vulgar, quase de botequim, e transforma-a numa ferramenta filosófica precisa. “Bullshit” é uma palavra que é um pouco difícil de traduzir, pois é literalmente “bosta de vaca”, mas seu sentido real é quase como “falar merda”… Mas a ideia da palavra no inglês, como explica Harry, traz em si o conceito de que o enunciador quer dar uma enganada receptor, sem necessariamente falar uma mentira.
O mérito do livro está justamente aí, pois Frankfurt explica que o “bullshit” não é simplesmente mentira. O mentiroso ainda respeita a verdade, nem que seja para a esconder. O “bullshitter”, por outro lado, encontra-se nas tintas. O seu compromisso não é com o verdadeiro nem com o falso, mas com o efeito que quer produzir no receptor.
É uma ideia brilhante porque explica muito do ruído moral, político e cultural à nossa volta. Frankfurt não escreve com floreados inúteis… ele desmonta uma praga contemporânea com uma clareza quase cruel. O livro é curto, mas funciona como uma bofetada intelectual… depois de o ler, fica difícil ouvir certas conversas, discursos e poses públicas sem sentir o cheiro do embuste.
Um exemplo quase didático desse mecanismo aparece na postura dos irmãos Bolsonaro diante das tarifas americanas contra o Brasil. Quando a pressão externa serve como arma política contra o adversário interno, ela é tratada como castigo merecido, correção moral, até patriotismo de ocasião. Agora, quando o mesmo tarifaço começa a cheirar a prejuízo econômico e custo eleitoral, surge de repente a pose de quem está “lutando contra” as tarifas.
Aí o bullshit fica em estado puro… não importa a coerência entre uma posição e outra, nem a verdade objetiva dos efeitos sobre o país. Importa apenas produzir a impressão conveniente do momento. O discurso deixa de responder aos fatos e passa a responder à plateia. Frankfurt provavelmente reconheceria aí o ponto central do problema… não é exatamente mentira, porque nem há respeito suficiente pela verdade para mentir direito… não, não, não… o cerne da questão é a total indiferença performática para com a verdade.
A parte final do livro é talvez a mais perigosa e mais atual. Frankfurt sugere que, quando as pessoas se tornam incapazes de discernir o que é verdade, acabam por desistir da própria busca pela verdade. No lugar dela, colocam a “sinceridade”: essa ideia confortável de que ser “verdadeiro consigo mesmo” já seria uma espécie de virtude suficiente. Mas aí está a falácia. Ser sincero não torna alguém certo. Uma pessoa pode estar profundamente comprometida com as próprias ilusões, preconceitos e disparates… e continuar sinceríssima
Certamente você, amiga leitora, amigo leitor, já imaginaram um infinito número de pessoas ao seu redor que agem assim. É um mal da geração. É aquela velha história do individualismo desmedido que faz a gente pensar só na gente o tempo inteiro e foda-se o resto…
O problema é que a sinceridade, quando substitui a verdade, vira um álibi elegante para a confusão. A verdade exige confronto com o mundo, enquanto a sinceridade exige apenas fidelidade ao próprio umbigo. Frankfurt acerta em cheio ao mostrar que essa troca é desastrosa. Porque, no fim, “ser verdadeiro consigo mesmo” pode soar bonito, mas não serve de grande coisa quando o próprio eu já está atolado em “bullshit”.






É exatamente isso. Esse livro é muito importante para entender o mundo de hoje
Cara, isso me lembra que muita gente que ainda defende Bolsonaro acredita que a oposição não gosta dele somente porque ele "fala verdades", ou seja, é muito sincero, honesto. Eu acho que o bolsonarismo potencializou os preconceitos já presentes na sociedade brasileira por meio do viés de grupo. Aliás, a hipocrisia da extrema direita é o velho charlatanismo com roupa nova, inventando soluções falsas para problemas inexistentes.