Cão come cão
Sobre “O Fã-Clube”, de Irving Wallace
Eu dificilmente sou uma pessoa que poderia se dizer preocupada com conceitos como “alta cultura”, “baixa cultura”, “cultura popular”, “high brow”, “middle brow” e o que for. Digo isso porque, ao meu ver, grandes artistas podem fazer grandes coisas em uma variedade de formas, gêneros e formatos, e aqui mesmo No Escuro eu gosto de privilegiar toda sorte de obras: cinema, televisão, literatura, videogames… mas eu entendo que não só essas distinções existem, como elas fazem sentido. Não dá para colocar Robert Bresson na mesma categoria que, sei lá, Sam Peckinpah, ainda que ambos sejam não só cineastas, mas “autorais”, ainda que a sua própria maneira. Dizer que Bresson é alta cultura (o que ele é) não significa dizer que ele é, sei lá, “melhor” (eu não sei o que isso significa, nesse ou em qualquer outro contexto) do que Bay, mas eles definitivamente não estão na mesma categoria, pois seus objetivos são outros, seus modos de produção são outros e seus métodos, também, são outros. Mas o que quero dizer é que, sim, eu acho que cultura pop, senão popular, pode ter suas jóias, ainda que brutas.
É o caso do romance de hoje, O Fã-Clube, de Irving Wallace, publicado originalmente em 1974.
Se hoje em dia é lugar-comum dizer que filmes e séries true crime pertençam a donas de casa de meia-idade1, podemos dizer que os romances de autores bestseller como Irving Wallace também o eram, quando de sua publicação nas décadas de 60, 70 e início dos 80, quando ele começa a entrar em decadência.
Wallace pertence a uma geração de autores, como Harold Robbins e Sydney Sheldon, que eram verdadeiras máquinas de imprimir dinheiro com seus romances melodramáticos e gigantescos, repletos de reviravoltas, cenas sexuais calientes (e com descrições hilárias) e ocasionalmente uma ou outra cena de ação. O mundo de seus personagens é o mundo das elites capitalistas, uma nova aristocracia que vive no jet set global. Glamour, luxo e riqueza surgem como marcadores aspiracionais para seu público-alvo: mulheres de classe média, geralmente donas de casa entediadas.
No entanto, esse mesmo público, a partir da década de 50, e com a Revolução Sexual dos anos 60, começou a sair do espaço doméstico e a ganhar - e competir - por espaços de trabalho tradicionalmente masculinos. Assim, não estamos mais falando do universo de uma Grace Metalious e seu Caldeira do Diabo (1956). Estamos no mundo que surge depois da pílula, de Woodstock e do Relatório Kinsey.
Sydney Sheldon escrevia melodramas que combinavam os tradicionais temas do gênero com narrativas de espionagem e thrillers; Harold Robbins, talvez o mais bem-sucedido da turma, escrevia sobre os ricos e entediados, com uma prosa cada vez mais maníaca e errática (Robbins tinha queda por um certo produto químico colombiano); e Wallace? Bem, ele é mais difícil de determinar.
Em primeiro lugar, Wallace era menos prolífico que seus companheiros, ainda que escrevesse sobre os mesmos tipos de personagens, e para o mesmo público. Mas Wallace gostava de pesquisar minuciosamente o assunto de seus livros, às vezes por anos, e fazia questão de passar em detalhe aos seus leitores os resultados de sua pesquisa. O Homem (1964), com suas quase 800 páginas, analisa em detalhe a eleição do primeiro negro para a presidência dos Estados Unidos - em que contexto isso se dá, quais são as consequências políticas, culturais e sociais, e como os personagens vivem isso em seu psicológico; Os sete minutos (1969, 634 páginas) é um drama de tribunal sobre os efeitos da pornografia e liberdade de expressão; O complô (1967, 764 páginas) é um thriller político e conspiratória sobre o auge da Guerra Fria, com intrigas (também sexuais, claro) sobre o mundo do poder das grandes potências; O Documento R (1976, 295 páginas) relata a tentativa do FBI de dar um “golpe de cima” no presidente dos Estados Unidos - a não ser que o Procurador-Geral possa impedi-lo a tempo. Seus temas por vezes transitam entre aqueles explorados por seus concorrentes Sheldon e Robbins, mas Wallace se destaca por querer atracar também com os temas, com o “debate cultural” de temas controversos, e sua pesquisa detalhada e atenção obsessiva a minúcias (aquilo que por vezes chamam de “logistics porn”) o diferenciam de seus colegas.
E, claro, não podemos deixar de mencionar o sexo. Esse elemento é comum a todos os três, e os três homens (sim, importante destacar: homens heterossexuais escrevendo candidamente sobre sexo para um público majoritariamente feminino - algo impensável, senão impossível, hoje em dia) se refastelaram nisso. Robbins em particular gostava de escrever sobre sexo como um garoto de 12 anos folheando a sua primeira Playboy, mas Wallace quer atracar os temas que, até a Revolução Sexual, eram tabus. E o romance em questão, O Fã-Clube, é exatamente sobre isso.
Ainda que, de certa maneira, o faça de maneira disfarçada.
A trama do romance é simples. Quatro homens, obcecados por uma atriz de cinema, decidem sequestrá-la. Mas não para exigir um resgate. Na verdade, eles desejam convencê-la de que eles são “homens de verdade” e, assim, viverem uma aventura sexual livre de todas e quaisquer amarras sociais. O problema é que as coisas não são bem assim.
Quatro homens comuns, absolutamente normais, criam um fã-clube informal para homenagear Sharon Fields. Fields é o símbolo sexual de sua época: uma atriz extremamente bem-sucedida, e uma que é inteiramente liberta. Wallace se inspira em atrizes como Sharon Tate, Jane Fonda, Brigitte Bardot e Anita Ekberg, mas com ecos de Marilyn Monroe e até mesmo Kim Novak. Os filmes de Sharon Fields capitalizam na atmosfera de liberdade sexual, e em entrevistas e ensaios ela enfatiza diversas vezes que é uma mulher nova: sim, pode ser um símbolo sexual, com o corpo de uma deusa, mas ela gosta mesmo - como reiteradamente diz em suas aparições públicas - de homens “de verdade”. De acordo com uma entrevista que ela deu, ela afirma que:
“Verifica-se atualmente uma grande revolução no relacionamento humano e eu fui envolvida por ela. Há uma nova liberdade sexual, igualdade entre os sexos e absoluta clareza e arejamento nas relações entre um homem e uma mulher. Estou de acordo com isso e quero ser parte disso. São muitos os homens que não compreendem o que está acontecendo às mulheres, ou a uma mulher como eu. Mas talvez alguns compreendam, e a esses eu digo: Sharon Fields está pronta e à espera” (Págs. 90-91)
Os quatro homens: Kyle Shively, um mecânico e veterano da Guerra do Vietnã; Adam Malone, um escritor sonhador, que paga suas contas como empacotador de supermercado; Leo Brunner, um contador de meia-idade, casado; e Howard Yost, um agente de seguros, também casado e com duas filhas; todos vivendo suas frustrações pessoais, sexuais e econômicas, almejam uma mulher como Sharon Fields. Como diz Shively:
“É porque temos sido espezinhados pela sociedade toda a nossa vida, como a maior parte das pessoas do mundo são. Vivemos acorrentados ao lugar onde nos atiram por toda a vida porque tivemos a infelicidade de nascer num regime de castas… (…) a política não me interessa. O que me interessa é a minha pessoa e não gosto do sistema em que sou forçado a viver. Os verdadeiros criminosos desse país são os ricos e poderosos. São eles que nos exploram e nos usam sem nada nos dar porque querem guardar tudo para eles. Já têm tudo, mas querem cada vez mais. Têm as melhores casas, os melhores lugares para passar as férias, o melhores carros, as melhores mulheres. Para nós o que fazem sujar em cima e nem se dão ao trabalho de puxar a descarga. Formam um clube fechado no qual não podemos entrar de jeito nenhum (…) Quero entrar, quero o pedaço a que tenho direito. Se não posso conseguir dinheiro, quero então uma boa mulher, uma papa fina, uma mulher pelo menos igual às que eles podem ter na hora que quiserem”. (Págs. 105-106)
Há uma corrente forte de ressentimento que passa pelos homens. Shively é um homem que serviu no exército, e hoje, só consegue trabalhar como mecânico numa oficina de Beverly Hills, atendendo às mulheres do ricaços, que sequer olham na sua direção; Brunner é o contador brilhante de uma rede casas noturnas, e o máximo que pode fazer é observar, enquanto o seu chefe, um babaca pouco inteligente, não só fica com a maior parte do dinheiro, como das mulheres que trabalham para ele. Yost, por outro lado, é mais sombrio. Na juventude, foi um atleta estrela de futebol americano, e só não entrou para a Liga nacional por conta de um acidente. Hoje, acima do peso, e com uma existência de classe média, afogado em dívidas, só o resta a sonhar. Sonhar o que poderia ter sido. E, numa cena particularmente perturbadora, temos um vislumbre de sua vida interna. Reunido com um cliente rico, a quem tenta vender uma apólice de seguro de vida, Yost fica o tempo todo salivando ao observar a filha adolescente do casal mais rico e bem-sucedido. Se fosse no seu tempo de juventude, Yost sonha, ela já estaria pulando em seu colo.



Malone, no entanto, é o ponto-chave: ele é absolutamente obcecado por Sharon Fields. É dele que parte a ideia, e é ele que convence os outros homens que seu plano não é uma fantasia, mas sim uma possibilidade real. Juntou arquivos e pastas, detalhando todas as suas entrevistas, aparições públicas. Documentou também seus relacionamentos e casamentos anteriores, o que produtores, amigos e outros artistas disseram sobre ela. Munido dessa montanha de informação, Malone convence os três outros homens - que acabaram de se conhecerem, diga-se, pois eram todos estranhos, do seu plano. Assim, todos passam a compartilhar do plano pois almejam resolver, com Sharon em cativeiro, os sonhos que uma vez quase tornaram realidade.
Na lógica dos homens, isso é possível pois Fields é uma mulher que vive rodeada por “maricas”, homens afetados e sicofantas. No alto de sua vida de luxo e glamour, ela perdeu o contato com homens de verdade, como eles. Assim, o sequestro pode de início parecer algo assustador ou criminoso, mas Malone tem certeza de que ela não só vai se convencer do contrário, como ela mesmo vai querer aproveitar a liberdade sexual que seu sequestro vai proporcionar.
E há um adicional: Brunner, através de seus talentos contábeis - e leve corrupção - consegue ter acesso às declarações de imposto de renda de Fields, e os homens descobrem a riqueza quase incalculável que ela possui. Ainda que eles não planejem resgate ou acesso a esse dinheiro, sua declaração de imposto de renda revela a diferença de classe absolutamente abissal que existe entre ela e os homens.
Das quase 600 páginas do romance, as primeiras 200 são quase que inteiramente dedicadas a Wallace nos apresentar detalhadamente quem é cada homem: onde estão hoje, de onde vieram, suas frustrações, sonhos, fracassos e pequenos sucessos. E também a logística do plano. Wallace detalha minuciosamente como um sequestro desses poderia se dar: os horários, a vigilância da rotina de Fields, o local do esconderijo e cativeiro, o carro que vão usar (e como adquiri-lo)… e é cansativo.
Por vezes, parece que estamos lendo um manual, um relatório, e a linguagem sem cor ou sabor não ajudam. Wallace é um autor de ficção popular, mas ele não é, definitivamente, uma Agatha Christie, ou mesmo um Stephen King. Confesso que, sinceramente, pensei em abandonar o romance. Não só o elemento principal da narrativa não chegava nunca - isto é, o sequestro em si, e o potencial conflito - como a linguagem era cansativa, muito descritiva e pouco… dramática. Mas, ainda assim, perseverei, pois havia… algo ali.
Wallace vai gradualmente construindo suspense, ainda que sutilmente. Malone, suspeitamos, é um stalker, e não um fã-obcecado; Shively talvez seja um sociopata violento; Yost, apesar de sua aparência de homem de família é, na verdade, um escroque amoral; e Brunner é, por falta de termo melhor, uma espécie de Adolf Eichmann: um burocrata que vive enterrado em suas planilhas e números, incapaz de perceber o próprio mal. E antes mesmo do sequestro, as possibilidades do estupro são debatidas entre os quatro homens. Eles, afinal, não querem forçar Fields a nada, e temem repercussões que possam vir a sofrer se cruzarem essa linha:
“Os jurados têm em geral a velha noção de que mulher alguma pode ser violada contra a sua vontade. Presume-se que se uma mulher foi penetrada foi porque quis e até gostou, pois essa é a natureza biológica das coisas. Cita-se muito um promotor público que dizia: ‘Se a mulher não estiver com a cabeça quebrada, não tiver noventa e cinco anos de idade ou não estiver em qualquer outra dessas situações extremas, os jurados não podem acreditar que ela tenha sido estuprada. Há sempre a suspeita de que a mulher foi a culpada, provocando o homem ou consentindo, e consentimento é a coisa mais difícil de contestar no mundo. É apenas a palavra da mulher contra a do homem, sem nenhuma outra prova’. Outra coisa difícil é a prova material. Quando a mulher é estuprada, a polícia a encaminha imediatamente para o Hospital Central, onde ela é submetida a um exame local e recolhe-se o esperma como prova. Podem dar-lhe depois uma ducha antisséptica, mas fazem questão de colher o esperma. Entretanto, essa amostra só é possível se a vítima é encontrada no local do estupro ou se apresenta queixa à polícia imediatamente. Mas só dois por cento das mulheres vão imediatamente à polícia. O resto vai para casa a fim de se refazer do choque e a primeira coisa que faz é tomar um banho. Lavam com isso todas as provas. Assim sendo, Leo, ainda que Sharon fosse apresentar queixa contra nós, as chances todas seriam de que isso não adiantaria nada.” (Págs. 101-102)
Os homens terminantemente não desejam estupro, pois estão convencidos de que Sharon Fields está no mesmo “time” que eles. Mas, ao colocar essa possibilidade durante a etapa de planejamento do sequestro, Wallace já aponta para o fato que o estupro, afinal, não só não está tão longe do horizonte de possibilidades, como a própria ideia de um “novo homem” e uma “nova mulher”, produzidos pela Revolução Sexual, produzam uma “nova sexualidade” onde consentimento é algo… “do passado”.
E, de qualquer maneira, lendo essas passagens em 2026, é de se pensar: que romance popular, bestseller, se prestaria a esse tipo de discussão hoje em dia? Ainda mais um escrito por um homem heterossexual? Esse tipo de texto e discussão, hoje, se encontra reservado em “literatura transgressora”, senão de horror, e publicada por pequenas casas editoriais. Definitivamente não pertencem ao mainstream. E, no entanto, Wallace foi um dos maiores bestsellers em seu tempo.
O que dizer de passagens como essa: “Era apenas peitos e bunda e queria justamente o que o homem queria. Querer e fazer aquilo igualava tudo, e nada mais tinha a menor importância. Era o maior nivelador do mundo, o maior promotor de igualdade na terra, o membro de um homem. Uma boa vara rígida de vinte centímetros concorria mais para promover a justiça social do que todos os grandes crânios do mundo” (pág. 16). Se isso aqui não é arte, então, eu não sei o que é.
O romance é repleto de passagens e elucubrações como essa, descritas numa linguagem, senão seca, sem cor, pelo menos, banal. “Irv The Perv” (o apelido é de James Ellroy2) não é estilista, afinal, e ninguém espera que ele seja um também. Mas passagens como essa não só nos ajudam a entrar na cabeça de seus personagens, principalmente na de um sociopata como Shively, como também já apontam para aquele que, ao meu ver, é o tema secreto do romance: o lado obscuro da revolução sexual.
E, tão logo Sharon está no cativeiro, e Malone apresenta seu ponto de vista para ela, tudo se desfaz. Ela ri dos homens e do seu plano absurdo. E toda a fantasia quixotesca dos homens escorre pelo ralo. É óbvio que Sharon Fields não fará sexo com nenhum daqueles desconhecidos, ainda mais naquelas condições. E, nesse momento, pela primeira vez, Wallace nos coloca na sua mente.
“Não - murmurava ela com uma voz que se esforçava por ser normal -, não pode ser verdade. Tudo isso tem de ser um pesadelo. Eu sabia que isto ia acontecer. Devia ter despedido aquele idiota que é meu agente de relações públicas. Lenhardt é que é o culpado de tudo isso com suas tolices sobre a nova mulher libertada e a sua convicção de que isso me criaria uma nova imagem e atrairia mais homens ao cinema. Aquele cretino me dizia que isso iria excitar os moços, aumentaria minha bilheteria e seria melhor para o meu futuro. E eu não prestei a atenção e não me importei. Deixei-o manobrar essa campanha como ele bem quis e fazer de mim a mulher que eu não sou, nunca fui e nunca poderei ser. Costumava dizer-me que eu era muito passiva fora da tela e que já se passara o tempo em que uma estrela era apenas o objeto para ser adorado. ‘Os tempos estão mudados e você tem de mudar com eles, Sharon’, vivia a azucrinar-me os ouvidos com isso. É preciso comunicar, dizer que você quer os homens tanto quanto eles querem você, dizer que as mulheres têm os mesmos desejos que os homens, proclamar que você é ousada e agressiva e quer homens que também sejam ousados e agressivos. Era a atitude moderna: tudo franco e sem véus, quer se sinta, quer não. Não dei a menor importância a isso. Estava interessada em outras coisas e deixei que ele fizesse a campanha como bem entendesse. Mas nunca, nem em mil anos e nos meus momentos da mais desvairada fantasia, pude imaginar alguém que fosse acreditar nessas tolices publicitárias, nessas mentiras dos jornais, e fosse agir como se elas representassem um convite”. (Pág. 224-225)
Sharon diz isso para Malone, que é o interlocutor que faz a ponte entre a atriz e os homens. Malone, no entanto, não consegue acreditar. Toda a sua pesquisa, toda a documentação que reuniu por anos, dizem o exato oposto. E, assim, ele não acredita em Sharon - mas também não sabe o que fazer.
“Seja você quem for, tem de acreditar em mim. Tudo isso é um amontoado de mentiras. Nunca disse uma só dessas coisas que acabou de ler para mim. Todas essas entrevistas foram feitas por jornalistas cheios de imaginação que me atribuíram essas frases. Posso provar isso. E você, pobre criatura crédula, engoliu tudo. Por que não pensou um pouco antes do seu ato demente? Porque não se perguntou se qualquer mulher decente quer ser tomada à força contra a sua vontade por um bando de estranhos? Pode haver qualquer mulher que queira ser narcotizada, sequestrada para algum lugar, amarrada desta maneira, a menos que seja também mentalmente doente? Qualquer homem de sensibilidade saberia o que responder a isso. Mas você, não. Então, acredite agora. Não sou o que pensa. Não, nada disso…” (Pág. 224)
E, depois, ela apela para humanização:
“Sejam quais forem as aparências, seja for a minha reputação, não acredite em nada disso. A minha imagem pública é uma grande ilusão. Dá uma ideia completamente errada a meu respeito. Sou uma mulher comum e normal, com os mesmos receios, indecisões e problemas da maioria das mulheres. Acontece que sou apenas uma mulher com determinada aparência e que tem sido apresentada ao público de certa maneira, mas pode acreditar que, em relação à pessoa que eu realmente sou, essa imagem é falsa. É uma fachada sem qualquer base na realidade”. (Pág. 225)
Isso, no entanto, não impede Shively que, naquela mesma noite, enquanto os homens dormem, entra no cativeiro de Sharon e a estupra. E, logo, sentindo inveja de Shively e seu exemplo, cada homem cria a sua própria justificativa para estuprar Sharon.
Menos Malone. Ou, melhor, não é bem assim. Ele tenta estuprá-la, mas não consegue - ele, bem, queima a largada.
E assim se dá por algumas noites, com Sharon amarrada na cama, tendo de aguentar cada assalto dos homens, que vão em sucessão ao quarto. Wallace documenta não só o estado mental dos homens, mas também de Sharon, e como ela começa a lidar com a sua situação, até entrar em um estado de absoluta dissociação.
Mas, ao mesmo tempo em que Wallace nos mostra seus personagens masculinos ficando cada vez mais patéticos - a cada sessão de estupro, suas máscaras sociais e psicológicas gradualmente se desfazem -, Sharon começa a se redescobrir. E, aqui, temos uma virada que é fascinante.
Amarrada na cama, estuprada todas as noites, em sequência, por cada um dos homens, ela se retira em sua própria mente e memórias. E, aqui, ela redescobre uma verdade sobre si mesma.
“Mas era a verdade dela, a sua torturada odisséia da sordidez da Virgínia Ocidental e das privações de Nova York até a cruel exploração de Hollywood. Os seus primeiros anos de atriz tinham sido os piores, pois tinha de servir como fonte de prazeres, de gueixa, oferecendo a sua carne e os seus órgãos para poder subir” (Pág. 295)
Ecos da própria carreira de Marilyn Monroe (ainda mais tendo em vista o filme de Andrew Dominik, de 2023) e de tantas outras atrizes, como ficamos sabendo no escândalo que envolveu o über-produtor Harvey Weinstein - precipitando o movimento MeToo. No entanto, não é tão simples assim, no caso de Sharon Fields, e ela continua:
“Tinha sido muito feliz, pois conseguira subir. Tinha vencido e ficara sabendo disso ao alcançar o platô onde os homens precisavam mais dela do que ela dos homens. Libertara-se da servidão aos homens quando obtivera o seu primeiro papel de estrela. Daí por diante, vivera plenamente livre.
Agora, pensando no que acontecera, percebeu no seu passado uma ambiguidade que a confundia. Na sua versão da história, tinha sempre visto os homens como exploradores, que se serviam dela para os seus prazeres egoístas. Entretanto, a interpretação podia ser diferente. Era perfeitamente possível dizer tanto que os homens tinham usado Sharon Fields para os fins deles quanto que Sharon Fields usara os homens para os fins dela.” (Págs. 295-296)
E, então, Fields conclui seu raciocínio e, com ele, desenha não só um plano de sobrevivência, mas um de ataque.
“Tentou assentar as coisas na cabeça. Sempre estivera convencida de que os homens a tinham usado - e como! - para os seus fins, mas também não se podia negar que ela os tinha constante e implacavelmente usado para os fins dela. Tinha-os provocado e engodado com a sua tantalizante promessa sexual. Astutamente, para conseguir o que queria, tinha manobrado os homens e lhes explorara as fomes, as fraquezas, as necessidades. Tinha jogado um contra o outro, exigindo primeiro para dar depois, barganhando e negociando para fazer cada qual um degrau para a sua subida. Cruel e friamente, em poucos anos, despedaçando vaidades, arruinando carreiras, desfazendo casamentos, usara os homens para atingir o pináculo.
Podia ainda justificar-se. Tinha sido uma pobre mocinha perdida num mundo dominado tiranicamente pelos homens. Entrara nesse mundo masculino desprivilegiada, sem segurança, de família, sem instrução, sem dinheiro, sem talento natural, primitiva e despojada. A sua luta e a sua ambição não tinham sido por dinheiro e fama, salvo quando essas coisas se traduziam no que ela realmente desejava e estava disposta a ter - segurança, liberdade, independência e identidade.
Havia atendido às suas necessidades porque, por sorte, possuía a única moeda que todos os homens desejavam e que tinha livre curso em qualquer reino - beleza. Entretanto, não era ao seu rosto e ao seu corpo que atribuía exclusivamente o seu sucesso. Conhecera centenas de pequenas de rosto encantador e corpo maravilhoso, Não tinham vencido, mas ela vencera. A razão para isso não era apenas a intensidade fanática de sua luta, mas a procura de alguma coisa além de sua aparência para promovê-la. Tinha estudado e aprendera a usar a sua aparência e seduzir os homens, para fazer dos homens seus servos ao mesmo tempo em que se fingia serva deles.
Tinha sido essa a diferença.
Não podia lembrar-se do número de homens com quem tinha ido para a cama ou com quem dormira durante a traiçoeira ascensão. Não podia lembrar-se porque nada havia para lembrar. Os homens não tinham tido corpo, nem rosto, pois eram apenas degraus. Na cama, tinha sempre olhado para além deles e não para eles, pois só via o distante local para onde se dirigia no alto da montanha.
O sexo jamais significara coisa alguma para ela (…)” (Pág. 296; grifos meus em negrito)
Se o romance é uma meditação sobre as consequências da Revolução Sexual na relação entre homens e mulheres, então, a conclusão de Wallace é a mais pessimista possível. E, veja, nesse retrato de Guerra dos Sexos, ou “economia sexual”, o resultado é nada menos do que um jogo de soma zero. Não há paixão, não há amor, não há sequer fisicalidade no ato sexual. Há somente jogo e manipulação, onde a atividade sexual (enquadrada no contexto não só do showbiz hollywoodiano, mas também nas prosaicas profissões exercidas pelos sequestradoras de Sharon) é mera moeda de troca nesse mundo cão como cão. E, mais interessante ainda, é que não há herói ou vilão propriamente nessa história.
Wallace, escrevendo em outro tempo (não muito tempo atrás, vale lembrar) e para outro público, não está interessado em esquemas bobos e fáceis de “vítima X opressor”. Essas babaquices didáticas ainda não tinham aparecido, e tampouco penetrado na cultura pop. O que Wallace faz, na verdade, é revelar um lado absolutamente sombrio da psique humana, e uma visão profundamente niilista na realidade. E, não posso deixar de repetir: uma que é mais surpreendente por estar em um romance popular.
Assim, a partir dessas reflexões, Sharon começa a atuar - sua maior performance. Ela identifica as fantasias e desejos ocultos de cada um dos seus sequestradores, e começa a atuar uma personagem que espelhe exatamente esses desejos e vontades. Yost e Brunner são presas fáceis; Malone e Shively são mais complexos. Primeiro, por que, no caso de Malone, ele é, para todos os efeitos, maluco. Shively, por outro lado, é um sociopata. Sharon descobre que este não é o seu verdadeiro nome, e que ele mudou de nome pois, durante sua passagem na Guerra do Vietnã, ele foi responsável por cometer inúmeras atrocidades contra civis, inclusive chacinas em vilarejos inteiros, matando mulheres, crianças e idosos. Com estes dois, ela precisa, de maneiras diferentes, tomar mais cuidado.
O que não quer dizer que ela não consiga manipulá-los, pois ela consegue. Na verdade, dessa parte em diante, percebemos que ela não está mais presa com os homens, mas sim eles estão presos com ela.
O que acontece, então, é que os homens também vão gradualmente perdendo o interesse nela. Nem mesmo Malone consegue mais realizar atos sexuais com ela. O único que não muda é Shively. O que Wallace está nos mostrando é que estes homens, mesmo tendo a mulher mais desejada no planeta à sua disposição, perdem o interesse. Aquilo que vivem em suas vidas pessoais, em seus casamentos e vidas pacatas, começa a aparecer no cativeiro com Sharon. E, assim, eles pensam no que fazer, e a ideia de exigir um resgate é sutilmente plantada por Sharon.
Ao forçar os homens a cometerem um crime como esse, ela pode também esconder a vergonha pública de ter virado escrava sexual dos quatro por semanas a fio. E, quem sabe, ela consegue atiçá-los para um confronto com a polícia.
O que ela não sabe, no entanto, é que Shively planeja executá-la ao final do processo do resgate. Armado o suspense Hitchcockiano, o terço final do romance é como um tenso thriller policial, um jogo de gato e rato onde Sharon começa a manipular os homens para que eles se virem contra si, e cometam erros, entregando sua posição para a polícia. Antes que tudo chegue ao fim, no entanto, Malone consegue perceber exatamente o que Sharon está fazendo e, naquele momento, “foi um instante de descoberta que lhe mostrou a verdade básica.”
“Não mais embelezada pela fantasia, posta claramente em relevo pela implacável luz da realidade, ela podia afinal ser vista sem véus. Pela primeira vez, ele a via como era e não como ele queria que fosse.
Ela era Sharon Fields, uma fêmea de fibra que lutava para sobreviver.” (Pág. 564)
Brunner é assassinado por Shively. Yost comete suicídio ao ser encurralado pela polícia. E Shively é fuzilado em uma saraivada de balas. Mas Malone sobrevive. De certa forma, Sharon o deixa escapar. Para um escritor tão prolixo e dado a contar mais do que mostrar, Wallace deixa os motivos por trás dessa escolha de Sharon pairando no ar.
Ao final, Sharon escapa e retoma a sua vida, e Malone também. Volta ao supermercado e aos seus ensaios, publicados ocasionalmente em revistas aqui e acolá. Uma existência patética, miserável, e até mesmo ressentida. E o que ele viveu com Sharon no cativeiro é uma memória distante, quase esquecida e sem importância. Tanto que, ao folhear uma revista, ele nota uma bela mulher numa matéria. Uma jovem atriz de cinema, que está fazendo barulho e sendo posicionada como um novo símbolo sexual, para uma nova geração. E Malone, assim, começa a pensar na possibilidade de criar um novo fã-clube…
O que é interessante num romance velho e esquecido como o de Wallace é saber que, um dia, um livro desses não só podia ser escrito por um homem heterossexual, mas também publicado, elogiado e tornado um bestseller. Wallace talvez tenha sido um dos escritores mais comercialmente bem-sucedidos de sua geração, e hoje, todos os seus livros se encontram esgotados, podem ser encontrados facilmente em sebos.
Mas é interessante um livro brutalmente niilista como esse, um rape and revenge que nada deixa a desejar aos filmes de Meir Zarchi ou Abel Ferrara, e brutalmente mais niilista que os novos filmes de Coralie Fargeat e Emerald Fennell. Pois o fato é que, ao final do romance, nada mudou. Pelo contrário, o ciclo só se repete. De mundo cão come cão, terminamos, na verdade, no ouroboros.
O livro foi discutido por Steven Powell, biógrafo de Ellroy. Seu canal do Youtube, “Ellroy Reads”, é dedicado a analisar e discutir livros que foram influentes para a formação de Ellroy como romancista.




