BURACO DE BALA
Anúncio de lançamento
Eu não costumo fazer muitos anúncios aqui nessa coluna, mas a de hoje não só é necessária, como muito especial.
Semana que vem, no dia 19/02 (quinta-feira), às 19h30, meu amigo e irmão Bruno Imparato lançará seu primeiro romance, BURACO DE BALA. O lançamento será na LIVRARIA PATUSCADA (Rua Luís Murat, 40).





O Bruno e eu estudamos cinema juntos. Fizemos filmes juntos, trabalhamos nos filmes de outras pessoas juntos e tivemos nossos primeiros empregos juntos. Bruno sempre foi um diretor pronto, formado. Sabia do que gostava: cultura popular brasileira, cinema trash, Cinema Marginal, e Boca do Lixo. Conseguiu que Carlos Reichenbach trabalhasse em dois filmes seus, e Bruno sempre teve - e tem até hoje - uma imaginação que é nada menos que um ciclone de referências, que casam o universo da tal da “baixa” cultura com a “alta”.
Inclusive, o audiovisual brasileiro perdeu um grande talento quando Bruno largou o cinema para virar… diplomata. Isso mesmo (aliás, o Bruno é formado em umas 15 faculdades, acho que nem ele sabe ao certo quantos diplomas ele tem). Seja como for, lá por volta de 2013-14 ele largou tudo e começou a estudar para o Itamaraty. Viveu na Liberdade como um monge libertino, estudando, estudando e estudando mais um pouco. Passou entre os primeiros. Hoje ele tá lá em Nova York, na ONU, observando o caos e a loucura e incompetência.
Em 2021, ele saiu de Brasília e veio para São Paulo novamente, onde assumiu a direção artística do Theatro Municipal de São Paulo. Ele conduziu a celebração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna e, como não poderia deixar de ser, logo eu e ele estávamos fazendo um filme juntos (que pode ser visto aqui:
). Mas ele logo voltou para Brasília, e pouco tempo depois, já estava em Nova York.
Por isso, quando ele me disse que tinha não só escrito um romance, mas também roteiros, argumentos e mais ficção, eu fiquei muito feliz. O Bruno tem talento e veia artística e, como falei, ele desde sempre soube sobre o que queria falar. Então, sim, vou usar esse espaço aqui para divulgar o trabalho dele.
Trecho do romance
Capítulo 11 - 03 de Abril de 1971
Cena 5 (nova): A Loba
O ar na Boca do Lixo tem gosto de fumaça e chorume. Num camarim improvisado, um cubículo com espelho rachado e lâmpadas piscantes, Clara Crocodilo coloca os cílios postiços com cuidado cirúrgico enquanto escuta Nelson Ned no rádio de pilha.
— Tá vendo essa merda, Neném?
Ela fala pra si mesma no reflexo, apontando para a maquiagem derretida sob o olho direito.
— Pareço a Caterina Valente depois de três dias de porre.
Fora, o estúdio da Servicine fervia. Zé Peixoto grita com um eletricista que trocou
os refletores de lugar.
— Aqui não é Hollywood, seu animal! É pra iluminar a cena, não a esquina!
Clara sorri. Adora o caos. Seu corpo é um espetáculo à parte, pele escura, pernas longas envoltas em meia-calça arrastão, quadril que balança como um sino de igreja, e um decote que deixa claro: ela não é mulher, nem homem, nem sequer humana. É um réptil sutil que se livra das peles a cada dia que passa. É Clara Crocodilo, ponto final.
A cena do dia era simples. Ela interpreta “Madame Satã”, uma cafetina que engana marinheiros num porto sujo. Tem uma fala só, “Tá com pena? Leva pra casa e cria.” Mas Clara odeia falas curtas.
— Zé, bota mais emoção nisso!
Ela reclama, ajustando o vestido decotado.
— Essa personagem é uma loba, não uma vadia qualquer!
Zé Peixoto suspira. Sabe que brigar com Clara é inútil.
— Clara, se a gente faz do seu jeito, o Galante vai reclamar e a gente vai ter que
cortar.
A filmagem começa. Clara entra em cena como um furacão, arrastando o vestido no
chão, os olhos cheios de veneno. Quando o péssimo ator que faz o marinheiro agarra-a,
ela não recua. Cresce.
— Tá com pena? Leva pra casa e cria…
SE SOUBER ONDE É A PORTA, SEU FROUXO DO CARALHO!, grita, empurrando o cara com tanta força que ele cai com o traseiro no chão. A equipe ri. Zé Peixoto esfrega a testa.
— Corta! Clara, pelo amor de Deus…
Ela já tirando o vestido, sem cerimônia.
— Próxima cena é às onze, Zé. Se alguém me procurar, tô indo pro Beco do China. Zé emputecido. Acende um cigarro de maconha e diz:
— Clara, só não te mando tomar no cu porque você gosta.
2. QUEM É O BRUNO IMPARATO?
Bruno Imparato é formado em cinema e relações internacionais, Imparato é corinthiano (fanático), fumante (mas tentando largar), artista diletante e já decadente e corredor. Após um período como diretor de curtas-metragens e finalizador, cansou e largou tudo para virar diplomata. Foi chefe de gabinete do Departamento Cultural e Educacional do Itamaraty, depois voltou para São Paulo para assumir a direção artística da Fundação Theatro Municipal e ser coordenador-geral das celebrações do centenário da Semana de Arte Moderna, o “22+100”. Logo depois, foi Introdutor Diplomático do Chanceler Mauro Vieira e hoje é diplomata na Missão do Brasil junto às Nações Unidas, em Nova York.
(*Sobre o Bruno ser corinthiano: ninguém é perfeito)
3. TRECHO DA ORELHA DO LIVRO
“São Paulo nos anos 70 não é um ponto no tempo-espaço. É estado de espírito. Uma sensação vulgar de desespero, armada e tóxica. Boca do lixo é um lugar onde os sonhos morrem”.
É assim que começa o livro de Bruno Imparato, Buraco de Bala, que, de fato, anuncia o que entrega: uma obra em um ritmo acelerado, dura, suscinta – onde cada palavra encontra seu exato lugar. O período é aquele em que vigorou o regime do terror no Brasil, quando, depois do AI5, instaura-se uma máquina de estado voltada para torturar e matar. Mas aqui estamos lidando com a pura literatura, até porque nem o período da ditadura civil/ militar define a trama, sendo que tampouco ocorre o contrário.
Difícil descrever o livro sem dar spoiler, ou falso spoiler, pois, de tão bem construído, feito com tantas voltas e reviravoltas, o romance, propositadamente, torna porosas as fronteiras da ficção e da não ficção.
O ambiente é feito de “podridão”: um cineasta pornô, filmes B, uma atriz desaparecida, um torturador que pensa ter jeito de Tarcísio Meira, salas do prédio do DOPS que cheiram morte, um bar imundo e com letreiros quebrados.
Músicas de época acompanham Buraco de Bala sem condicioná-lo. “Tá lá um corpo estendido no chão”, de Aldir Blanc e João Bosco; Menina Veneno, de Ritchie; Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, e até uma análise para lá de misógina de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, entram e saem da narrativa, como se estivéssemos lendo o romance com um radinho de pilha ao lado.
Na trama, encontramos freiras revolucionárias ou não, corpos mortos, uma mulher estuprada, a ameaça de um “cinema de verdade” – que traga “o que todos sabem, mas ninguém diz” —, o sempre revolucionário Zé do Caixão (com o filme “mais censurado” do Brasil), as “técnicas avançadas de interrogatório” captadas por uma suposta câmera que grava um jovem universitário sendo exposto ao pau de arara, aos choques elétricos, à necrofilia. É a própria banalidade e a rotina do mal que andam juntas, representadas de forma fria, despertando a besta em cada um de nós: “o ritual dos sádicos”.
O livro alcança até o momento imediatamente posterior à ditadura, quando a linguagem da violência que o regime naturalizara continua atuante no cotidiano da Nova República. Como escreve Imparato: “um regime que acaba no papel, mas ainda vive na prática”, pois “um velho mundo está morrendo”, mas “o novo demora a nascer”.
Definitivamente, o totalitarismo não é apanágio dos grandes protagonistas. Ele sobrevive no corpo e nas mentes daqueles pequenos personagens medíocres, dentre delegados menores, promotores ansiosos, donos de bar desocupados, investigadores corruptos. Pois é certo: “ninguém quer a verdade, querem a versão que deixa dormir”.
Buraco da bala é um livro urgente, absolutamente bem escrito, cruel, feito para lembrar que o nosso passado insiste em se apresentar, redivivo, na lógica do presente.
Texto de orelha escrito por Lília Schwarcz
Então, repito, mais uma vez: Semana que vem, no dia 19/02 (quinta-feira), às 19h30, meu amigo e irmão Bruno Imparato lançará seu primeiro romance, BURACO DE BALA. O lançamento será na LIVRARIA PATUSCADA (Rua Luís Murat, 40).
Quem puder, compareça. E, quem não puder, comprem o livro!
Abraços e até a próxima.


